Debaixo da Árvore - Celso Arruda

 por Celso de Arruda - Filósofo - MBA



Título: "Debaixo da Árvore"

Gênero: Filosófico / Contemplativo
Personagem: Siddhartha Gautama (Buda)
Narrador: Voz em off ou ator fora da cena

Cenário:
Um palco vazio, com apenas uma árvore estilizada (pode ser pintada ou uma estrutura de galhos secos). Ao centro, uma esteira ou pano simples no chão onde o Buda se senta. Iluminação suave, âmbar. Sons ambientes de vento e pássaros, leves.


ATO ÚNICO

(Luzes baixas. Som de vento suave. Entra o NARRADOR, caminhando devagar. Para ao lado do palco, fala ao público.)

NARRADOR:
Em tempos antigos, sob o silêncio do mundo, um homem cansado de perguntas largou a coroa, o palácio e as palavras.
Seu nome era Siddhartha.
Ele caminhou, jejuou, meditou...
E, um dia, sentou-se sob a sombra de uma figueira, determinado a encontrar aquilo que não se pode ensinar...
a verdade que silencia o medo.
Ali, tornou-se Buda.
E é sob essa árvore que o encontramos agora.

(Luz ilumina o centro do palco. Buda está sentado em posição de lótus. Olhos fechados. Silêncio por alguns segundos. Ele abre os olhos lentamente e começa a falar, como se pensasse em voz alta.)

BUDA (monólogo):
Tantas vidas eu caminhei, sem saber o que buscava.
Fui príncipe... filho... mendigo.
Tantas máscaras, tantas vozes dizendo: “isso é felicidade”.
Mas nenhuma delas me vestia bem.

Aqui...
sob essa árvore, não há ouro, nem guerra, nem vitórias.
Apenas eu...
E mesmo esse “eu” começa a desaparecer.

Sinto o vento...
ouço o som da vida passando entre as folhas.
Não há perguntas agora.
Só... presença.
Só o instante.

A dor que tive... era apego.
A sede que me consumia... era desejo.
A prisão... era o “eu quero”, o “eu sou”, o “meu”.

Agora entendo:
O rio corre porque não luta contra a margem.
A chama dança porque aceita o vento.
E a mente... se liberta, quando para de querer vencer o mundo.

(Fecha os olhos. Silêncio. Respiração calma.)

BUDA (cont.):
O despertar não é milagre...
É entrega.
É morrer um pouco —
e renascer sem peso.

(Abre os olhos. Olha para o céu.)

Se alguém ouvir minhas palavras, que não as siga como regras,
mas como pegadas de quem passou antes.
O caminho é de cada um.
Mas a luz...
a luz é para todos.

(Luz baixa lentamente até escurecer. Silêncio.)

NARRADOR (voz em off):
E assim, no silêncio de sua mente,
o príncipe se fez vazio...
e no vazio, encontrou a verdade.
Chamaram-no de Buda.
Mas ele apenas sorriu.

(CORTINA. FIM.)


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